Os grandes também erram
21 de Novembro de 2006 às 21:57 Sergio Oliveira | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 679
A paralização das atividades da fábrica de calçados Samello, na cidade de Franca/SP, mostra que grandeza nem sempre é sinônimo de solidez.
Fundada em 1924 por Miguel Sábio de Mello, teve o seu auge na década de 90, quando chegou a empregar 2,7 mil pessoas. Hoje possui menos que 100 funcionários. Só em outubro foram demitidos 340 empregados após acordo com o Sindicato local.
Segundo reportagens divulgadas nos jornais Valor Econômico ( 16/11/06) e O Estado de São Paulo (17/11/06), a empresa entrou com pedido de recuperação judicial (concordata) justificando que encontra-se em série crise econômico-financeira motivada pelos seguintes fatores:
- Valorização do real
- Mais de 60% da produção voltada para a exportação
- Inadequada estrutura de financiamentos
- Concorrência chinesa
A falta de caixa para manter a produção levou a paralisação das atividades a mais de um mês. Para ser retomada a empresa estima necessitar de 5 milhões de reais de aporte financeiro.
Com o pedido de recuperação judicial a empresa se afasta da pressão dos credores, bancos e fornecedores e passa a ter condições de repensar o negócio.
O total da dívida foi apurada em 55 milhões de reais, já considerando salários e encargos financeiros.
Uma notícia boa é que o patrimônio da família é bem superior ao total da dívida. Apenas uma fazenda no Mato Grosso está avaliada em 60 milhões.
O processo de profissionalização foi iniciado em 2003/2004, com a criação de um conselho familiar e a contratação de profissionais do mercado para gerir a empresa. Naquele momento a empresa já se encontrava com a necessidade de saneamento financeiro.
O que o caso da Samello nos explicita?
Do ponto de vista gerencial:
- Que os problemas enfrentados no dia a dia pelas pequenas empresas também afligem as grandes. Muitas vezes achamos que algumas empresas são sólidas e grandes demais para quebrar, o que nem sempre é verdade.
- Algumas regras básicas se aplicam a todas as empresas, independente do porte. Cuidados como estar atento aos cenários prováveis, as mudanças de rota dos mercados, preferências dos clientes, os passos da concorrência e o principal, juntar tudo isso e tomar decisões rápidas. Nessa hora a empresa pede ajuda e um mês a mais pode significar sérias complicações.
Mas, de nada adianta colocar dinheiro novo em empresa que está perdendo dinheiro. O dreno tem que ser fechado e a empresa reposicionada. Caso contrário, mais dinheiro só amplia o problema.
Do ponto de vista Operacional, dentre os fatores citados gostaria de ressaltar dois:
- Inadequada estrutura de financiamento – Quando olhamos para uma empresa como a Samello, como meros observadores, imaginamos que ela tenha a possibilidade de negociar as melhores condições de financiamentos junto a bancos, conseguindo taxas mais baixas e prazos adequados ao tipo de necessidade financeira. O que também não é uma verdade, pois a própria declaração da empresa ressalta que o mix de recursos de bancos está concentrado no curto prazo e sufocando o caixa de empresa.
- Fluxo de Caixa negativo – As atividades foram paralisadas por falta de R$ 5 milhões de reais. De nada adianta ter um patrimônio em nome dos sócios superior a R$ 100 milhões de reais e não ter a liquidez mínima necessária para mantê-la funcionando.
Sou admirador da Samello, da sua história, da sua tradição, da qualidade dos seus produtos, da estratégia de abertura de lojas próprias e do seu reconhecimento no exterior como uma empresa 100% brasileira que tem condições de competir mundialmente e levar o nome do nosso País fronteiras afora, por isso, neste momento estou na torcida para que a empresa tenha êxito na sua recuperação judicial e volte a funcionar.
Desejo-lhes sorte!!!
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